lista de coisas para ler, ouvir e ver

  • les liasons dangereuses, choderlos de laclos
  • charles baudelaire, le peintre de la vie moderne
  • the pillow book, peter greenaway
  • marie antoinette, sophia coppola
  • 36, Gerard Depardieu et Daniel Auteil: sombrio, mas imperdível
  • o que sobrou de cérebro na FSP: Rossi, Gaspari, Jânio de Freitas
  • o mercador de veneza, o filme
  • Gustave Flaubert, L'Éducation Sentimentale

Monday, April 16, 2012

Urbanismo de Berlim: Livro: Muro de Berlim – Um mundo dividido 1961-198...

Urbanismo de Berlim: Livro: Muro de Berlim – Um mundo dividido 1961-198...:  "O autor explicita a situação política mundial que permitiu a construção e a queda do muro de Berlim, dividindo a Alemanha em duas, ent...

Urbanismo de Berlim: Construção e Queda do Muro de Berlim

Urbanismo de Berlim: Construção e Queda do Muro de Berlim: Em 13 de agosto de 1961, guardas da Alemanha Oriental começaram a separar com arame farpado e concreto os lados oriental e ocidental de B...

Sunday, January 15, 2012




 
   

         
  1. Rio de Janeiro, Brazil

  2.      
  3. Paris, France

  4.      
  5. Garopaba, Brazil

  6.      
  7. New York City, NY, USA

  8.      
  9. Montreal, Quebec, Canada

  10.      
  11. Chicago, IL, USA

  12.    

 





Thursday, February 24, 2011

calligaris e as crianças

CONTARDO CALIGARIS 

Pesquisas de grupo 



Queremos ver as crianças felizes e jocosas. Portanto, nós preferimos emburrecê-las a aborrecê-las


FRANCISCO, 8, anuncia: "Preciso fazer uma pesquisa para um projeto de grupo sobre a China".
Encarregado das ilustrações, Francisco "pesquisa" no Google Imagens.
A impressora está em pane; alguém leva Francisco e seu pen-drive para a casa da tia, a qual interrompe seu jantar para imprimir os arquivos.
Em menos tempo (e sem mobilização familiar), Francisco poderia ter memorizado três boas páginas sobre a China, seus costumes, sua história etc.
Há 20 anos, como pai, padrasto, professor e terapeuta, sou perseguido pelas "pesquisas de grupo".
A moda do trabalho escolar em grupo evoca, aos meus ouvidos, a fala de colegas que, nos anos 70, improvisavam grupos terapêuticos. Os tempos são duros, eles diziam, e o paciente pagará a metade do que custa uma sessão individual.
De fato, a terapia de grupo não é uma espécie de excursão de ônibus (mais barata para os turistas e mais rentável para o cicerone): ao contrário, ela é uma forma específica de terapia, na qual a dinâmica do grupo mobiliza aspectos da subjetividade que seriam de acesso e manejo árduos numa terapia individual.
Ou seja, na terapia de grupo, a existência do grupo permite algo que aconteceria mais dificilmente numa terapia individual.
Será que o mesmo não deveria valer para os trabalhos em grupo nas escolas? O trabalho em grupo só se justificaria se ele permitir que o aluno tenha uma experiência diferente, mais rica da que é proporcionada pelo trabalho individual.
Alguns dirão que isso é o que acontece: o trabalho em grupo promove uma socialização que é crucial para a criança. Poderia responder que um pouco de solidão garante o silêncio necessário para que o aluno desenvolva uma vida interior.
Mas a questão é esta: quantos professores têm a competência e o entusiasmo pedagógicos necessários para propor um trabalho de grupo que não seja apenas uma excursão mais barata por ser de ônibus?
Também faz 20 anos que ouço crianças anunciando que seu dever de casa é uma "pesquisa" - nas enciclopédias, nas revistas, nos livros dos pais, nas bibliotecas, na internet e no Google.
Ora, procurar uma palavra num dicionário, numa enciclopédia ou no Google, é, justamente, uma procura -não é uma pesquisa.
Ler dez, 20 ou mesmo 50 livros sobre um tema não é pesquisar, é apenas se informar e estudar.
Se, a partir dessas leituras, alguém costurar uma nova interpretação dos fatos, essa engenharia do pensamento será suficiente para um trabalho de conclusão de curso, para uma dissertação de mestrado e até para uma tese de doutorado, mas ainda não será propriamente pesquisa.
Fazer pesquisa significa produzir (ou almejar produzir) um saber novo, inédito.
Imaginemos que Francisco, depois de passear pelo Google, leia dez livros sobre a visão da China pelos primeiros que viajaram para lá.
Isso seria estudo, não pesquisa. Agora imaginemos que, ao longo dessas leituras, ele se pergunte quais relatos de primeiros viajantes fossem conhecidos por Marco Polo.
Francisco poderia ir a Veneza e vasculhar a Biblioteca Marciana ou o Archivo di Stato até encontrar o testamento de Marco Polo, no qual o explorador talvez tivesse listado seus livros mais preciosos.
Essa, sim, seria uma pesquisa (aviso, para evitar viagens inúteis: o testamento de Marco Polo já foi encontrado há tempos).
Resta a pergunta: por que diabos, aparentemente, gostamos de convencer nossas crianças de que uma procura no Google seria pesquisa?
Por que diabos encorajamos trabalhos em grupo que são apenas maneiras de dividir as tarefas e minimizar o esforço? Por que, em geral, exigimos cada vez menos de nossas crianças?
A resposta usual (e certeira) é a seguinte: amamos nossas crianças como continuações de nós mesmos. Para compensar nossas frustrações, queremos vê-las continuamente saltitantes e jocosas. Portanto, preferimos emburrecê-las a aborrecê-las.
Mas é preciso completar essa resposta. Amamos as crianças porque elas poderão corrigir nossa vida quando não estivermos mais aqui.
É impossível que esse tipo de amor não seja contaminado por uma ambivalência, pois a vida futura das crianças é o símbolo de nossa mortalidade.
Nossa inveja (mais ou menos raivosa) pode, por exemplo, expressar-se assim: tudo bem, as crianças nos sobreviverão, só que a sua vida será inculta e chata -bem-feito, quem mandou não morrer com a gente? 

ccalligari@uol.com.br

Sunday, June 06, 2010

a falta que faz uma tradução

escolho livros pelo formato, um que me caiba bem nas mãos, o cheiro ácido e doce do papel. leio knut hamsun em duas versões, já que nem vou me aventurar pelo alemão (de resto, uma tradução do norueguês. aí também, vai  um pouco além da conta. Oslo será uma das últimas cidades que vou conhecer na vida...) o fato é que uma das traduções foi feita pelo C. Drummond de A., e a edição é horrorosa. o outro não: um tradutor relativamente desconhecido, mas o livro, fininho, maleável, as letras minúsculas, os parágrafos em espaço um. só que era drummmond, e isso não se despreza nunca.

a descrição do outono:
" começa a mergulhar em letargia todas as coisas. moscas e outros seres pequeninos sentiram-lhes os primeiros golpes.lá em cima, nas árvores, e cá embaixo, na terra, percebe-se o rumor da vida obstinada, fervilhante, sonora, inquieta, lutando para não perecer. no mundo dos insetos, todas essas breves existências se agitam uma última vez. ... o sopro ligeiro do primeiro frio perpassou sobre as plantas, e cada uma delas guardou um sinal diferente. talos de erva, desbotados, eriçam-se contra o sol; folhas ressecadas rolam por terra com o chiado de uma procissão de uma procissão de bichos-da-seda. É a sazão outonal, em meio ao carnaval da efêmera duração."

Friday, June 04, 2010

matogrosso: a arte existe para não deixar perder a memória da falta


o tempo segue - impassível - seu curso, mas nunca maltrata  alguém que  resiste: fiel - a um gosto que seja -, um gesto,  hábito das suas fibras, um jeito de corpo, sua pele.

Friday, May 28, 2010

mapas


Mapas além-Google
Por Giselle Beiguelman
Em “Sur-viv-all’’, Andre Lemos combina GPS, fotos e vídeos para “escrever” uma cidade canadense e questionar as mídias locativas
Se você ainda tinha dúvidas sobre a possibilidade de falar e pensar em narrativas nômades, “Sur-viv-all’’, de Andre Lemos, vai acabar com elas. Combinando recursos de mapeamento on line, GPS, fotos e vídeos, Andre, que é professor da UFBA e pós-doutorando da Universidade de Alberta (Canadá), produziu um interessante discurso crítico sobre a cidade contemporânea como espaço de fluxo e historicidade transitória.
O nome do projeto “Sur-viv-all’’ é um trocadilho “nomádico”, locativo e narrativo. A palavra "survival’’ foi transformada em "Sur-viv-all," tentando criar sentidos diferentes em inglês e em francês, as línguas oficiais do Canadá, e em português, a língua-mãe de Andre.
Em francês, podemos inferir na palavra a idéia de “Sur viv( r)e/vie’’ algo como “um excesso e uma falta da vida, algo que ocorreu apenas quando a sobrevivência é o mínimo e o último recurso da existência”, diz Andre.
Em português, para o autor, o que fica é o "Viva", reivindicando viver, um imperativo. Já em "survival”, em inglês, ainda segundo Andre, aparece o sentido original da palavra -sobrevivência-, porém maximizado pelo “all’’ (tudo).
A idéia, conta ele em seu site, veio do cruzamento de sua leitura do livro “Survival”, de Margaret Atwood, com a pesquisa que desenvolve sobre mídias locativas, cidade, mobilidade e novas tecnologias.
Nesse livro, segundo Andre, a autora defende a tese que o enfrentamento com a questão da sobrevivência é um padrão na imaginação da literatura canadense, que lida, em geral, com a luta com as forças da natureza, dos nativos e dos animais.
Contemporizando e contextualizando essa reflexão sobre a sobrevivência com sua pesquisa sobre mídias locativas, Andre “planeja-escreve” a cidade de Edmonton, onde está fazendo seu pós-doutorado, com um rastreador baseado em GPS. O GPS é utilizado para marcar em mapas on-line (como iStumbler, Google Earth e Google maps) e hotspots (pontos com wi-fi, redes sem-fio).
“O que eu procurava aqui era uma maneira de estar mais perto da cidade, compreender e sentir seus espaços, sua dinâmica. Uma maneira de ver minha ‘sobrevivência’ aqui. O que está na base de tudo é a imaginação sobre a cidade, o relacionamento com temperaturas extremas, o uso dos carros como forma de deslocamento padrão, os espaços vazios, a invisibilidade dos processos eletrônicos nas estruturas reais do espaço público”, diz ele no website do projeto.
São inegáveis os desdobramentos da explosão dos novos formatos de mapeamento e localização que se abrem com a popularização dos GPSs e a acessibilidade dos mapas on-line. Tudo isso, no entanto, aponta para novas dinâmicas geopolíticas e para certa redundância estética, em que se patina na utopia de um mapa na escala 1:1, como um dia sonhou o triste personagem borgeano de “Do Rigor na Ciência”.
Nesse minúsculo conto, Borges escreveu:
“Naquele Império, a arte da Cartografia atingiu uma tal perfeição que o mapa duma só província ocupava toda uma cidade, e o mapa do Império, toda uma província. Com o tempo, esses mapas desmedidos não satisfizeram, e os colégios de cartógrafos levantaram um mapa do Império que tinha o tamanho do Império e coincidia ponto por ponto com ele. Menos apegadas ao estudo da Cartografia, as gerações seguintes entenderam que esse extenso mapa era inútil e não sem impiedade o entregaram às inclemências do Sol e dos invernos. Nos desertos do Oeste subsistem despedaçadas ruínas do mapa, habitadas por animais e por mendigos. Em todo país não resta outra relíquia das disciplinas geográficas (Suárez Miranda, “Viagens de Varões Prudentes’’, livro quarto, cap. XIV, 1658)’’.
Leia a seguir a entrevista de André Lemos à Trópico, feita por e-mail, acesse a documentação do projeto no “link-se’’, no final deste artigo, e boa viagem.
*
A variedade de saberes envolvidos no seu projeto faz pensar que é conceitualmente inoperante insistir na definição do que é objeto do campo da comunicação, da arte, da tecnologia etc. Você situaria seu projeto em algum campo específico do conhecimento ou está na hora de abolirmos essas categorias estanques?
Andre Lemos: Acho que meu projeto tem um viés artístico, já que é metafórico, cruza com a literatura, não tem pretensões de provar nada e foi feito como uma catarse da minha experiência nas "praries", no Oeste do Canadá. É, por assim dizer, estético.
Não tenho pretensões artísticas e fiz para me divertir e "marcar" a cidade, deixar o meu "traço" por lá. O que está em seu fundo, no entanto, é a minha preocupação teórica com a temática da cidade, das tecnologias de comunicação, da mobilidade e das novas funções dos lugares e dos territórios, hoje, em meio a fluxos internacionais de informação digital.
Não acredito em fronteiras do conhecimento que não sejam membranas, permeáveis, que sejam, no fundo, mídias. Parto das ciências sociais, bebo na literatura, experimento uma práxis artística, volto as ciências sociais... Não sei bem onde começa um e termina o outro.
Só consigo pensar fazendo várias coisas ao mesmo tempo: minhas fotos, meu blog, meus projetos, como o "Wi-Fi Salvador", o "Ciberflânerie", o "https" (todos estão no meu blog), me ajudam a produzir teoricamente, me fazem produzir outras coisas e assim por diante.
Não há e não deve haver fronteiras que nos prendam na aventura do conhecimento. Fronteiras devem ser “hubs’’ e não prisões. Sou engenheiro de formação, tenho mestrado em política de ciência e tecnologia com ênfase em filosofia da técnica e meu doutorado foi em sociologia. Agora sou professor da comunicação. Como poderia defender fronteiras estanques do pensamento?

“Sur-viv-all’’ nasceu no Canadá e traz embutido no nome a complexidade territorial da cultura da mobilidade. Mas é difícil abstrair o fato de que você é um soteropolitano temporariamente no freezer. O título me remete, assim, à idéia de uma palavra-chave numa determinada locação. Que romance ou que palavra seria a chave do mapeamento de Salvador?
Lemos: Na realidade nasci no Rio, mas estou há muitos anos em Salvador e tenho uma linda filha baiana. Aceito o rótulo com prazer e orgulho. Me sinto desterritorializado, já que não me vejo pertencendo nem a um lugar nem a outro.
Bom, o que me levou a fazer o “Sur-viv-all’’ foi a minha paixão pela literatura e o meu interesse intelectual pelas novas tecnologias. “Sur-viv-all’’ só foi possível por causa do meu olhar estrangeiro (não é à toa que é o primeiro do gênero em Alberta, e talvez no Brasil com GPS writing, mas não saberia afirmar com certeza).
Salvador é mais interna, digerida e não seria fácil para mim fazer o mesmo. Mas tenho conflitos e amores pela cidade e já tinha pensado em fazer um com o meu grupo questionando a idéia da "cidade da alegria". Fizemos o “Wi-Fi Salvador’’ (mapeamento de hotspots wi-fi), mas minha idéia era mapear a alegria (e seu oposto) nas ruas da cidade. Talvez ainda faça isso.
Qual romance seria a chave para o mapeamento de Salvador? Não sei bem, mas o que me vem a cabeça, pela origem, pela malemolência, a astúcia, a força e a criatividade da cidade, talvez seja "Viva o Povo Brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro.
Acho que a palavra que escreveria com um GPS seria "povo", que remete à dimensão cotidiana e impregnante da cidade e, ao mesmo tempo, ao folclore dessa socialização, ao que falta na cidade (e talvez no país como um todo). Acho que em Salvador o que mais tem, e o que mais falta, é "povo".

“Locative media’’ é um dos temas mais quentes do momento. Como tudo que é inflacionado por modismos, implica riscos. Nesse sentido, não me impressiona a quantidade de projetos redundantes que são mais exercícios de “desabstração” do que de mapeamento. No limite, parecem correr atrás daquele fantasma borgeano de criar mapas na escala 1:1, explicitando a obviedade do local, em detrimento da representação (que é sempre multiplicadora de sentidos). Como você vê essa questão e o boom dos “locative media”?
Lemos: Há vários projetos sobre o título de “locative media”. Considero três grandes campos: “anotações urbanas”, “mapeamento e geotags” e “location-based mobile games”. O interessante é que o tema vem de artistas que buscam diferenciar suas ações daquelas de grandes empresas.
Hoje as coisas estão meio misturadas, mas o fenômeno revela formas de apropriação de dispositivos móveis (como celulares, GPS, palms) e de sistemas de publicação disponíveis na Web para projetos "bottom-up". Eles visam repensar o espaço público, a cidade, a produção de conteúdo sobre lugares, o uso da cidade.
No meu entender, o mais interessante é ver como projetos com mídias locativas (informação anexada a lugares e objetos) impedem que caiamos em teses hegemônicas de autores consagrados que afirmam o "fim dos lugares", “o fim do urbano”, a “desmaterialização” e a “desterritorialização” completa do real pelo "virtual", a perda do "sentido de lugar" etc. Acho que o que estamos vendo hoje nesses projetos são usos efetivos dos lugares, criação do que chamo de "territórios informacionais" que redefinem os lugares contemporâneos.
Lugares se modificam com o fluxo informacional. Mas eles não desaparecem. Projetos com mídias locativas não estão em um ciberespaço independente do espaço físico, mas sim na intersecção, tencionando os lugares, criando novos sentidos, novas territorializações, novas formas de controle, novos conteúdos pessoais e comunitários e novos usos do espaço urbano. São, por assim dizer, tendências rapidamente seguidas pelo mercado (companhias de celulares oferecem hoje mapeamento, GPS, micro-blogging, acesso à software sociais etc...).
Sobre Borges, você tem razão, e escrevi recentemente em um artigo que os processos de territorialização com mapas e GPS são exatamente a concretização do microconto de Borges: mapear é, como sempre, controle, criação de territórios. Hoje, com GPS e sensores, a potência informacional faz com que o deslocamento pelo espaço coincida exatamente com percursos por mapas eletrônicos. Assim, andar com um GPS é como andar em um mapa de escala 1:1.

Já se disse que quem não estiver no Google, em alguns anos, não existirá. E o que está fora do Google Map? Estará também condenado a uma espécie de “limbo” da história e da geografia?
Lemos: Sim, como sempre. O que não estava nos mapas dos grandes impérios (Roma, Portugal, Espanha, Grã Bretanha...) não existia e estava condenado ao limbo da história.
O Google Maps e o Google Earth criaram oportunidades gigantescas de aprendizagem, de produção de conteúdo e de mapeamento (com fotos, vídeo, textos...) para qualquer um. Devemos lembra que a produção de mapa e representações sobre um território era exclusiva de técnicos, cartógrafos, engenheiros e burocratas que servem ao poder constituído.
Como falamos anteriormente, esses sistemas de mapas digitais tornou disponível, para todos com acesso à rede, uma possibilidade de produzir conteúdos e mapas sem precedentes na história da humanidade. Com finalidades as mais diversas, esses mapas hoje permitem a pessoas e comunidades criarem histórias e significações autóctones sobre suas realidades, sobre seus “lugares”. Ou seja, é possível produzir histórias sobre os lugares que não são as oficiais, criar sentido além da reprodução oficial. Isso é muito bom.
No entanto, precisamos estar atentos às limpezas e maquiagens do Google. Sabemos que pontos chaves do território americano foram recentemente apagados, que zonas de Bagdá e do Afeganistão foram esteticamente melhoradas, que há lugares que não existem nesses mapas, ou são apenas “pontos”, que há diferenças de definições das imagens dos mapas e que essas diferenças não são neutras etc.
Mais ainda, embora seja gratuito, o sistema não é "open source", e os API (Application Programming Interface, ou Interface de Programação de Aplicativos) que usamos hoje podem nos ser retirados ou cobrados no futuro.
Nada muito novo. Precisamos lembrar que toda construção de mapas é ideológica, que ela esconde poderes e não é de forma nenhuma a "realidade". Como sempre, e não apenas hoje, criar mapas é produzir uma realidade, é criar uma história que se pretende “a” história. No Google Maps ou no Google Earth, ela é tão performática que temos a impressão de ser toda a “realidade”. Não é. Devemos pensar também que a realidade é o que não está no Google.

Publicado em 19/04/2008
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Giselle Beiguelman
É curadora do Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia e professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Editora da seção "Novo Mundo", de Trópico. cria e desenvolve projetos experimentais para redes fixas e móveis. Site: www.desvirtual.com

amsterdan, por lucas db barbi


Reel #02 - Amsterdam from LD Barbi on Vimeo.

Saturday, May 22, 2010

Köln, Ansicht II

Köln, Ansicht

(Ansicht von Köln 1531: Verkleinerte Wiedergabe der Hauptpartie des im Original 352 cm breiten Holzschnitts von Anton von Worms. eingescannt aus: Henne am Rhyn, Dr. Otto: Kulturgeschichte des deutschen Volkes, Erster Band, Berlin, 1897., S. 387 [[category)

köln, deutschland

frankfurt am main, deutschland

fertilidade e terror/ douglas garcia alves jr.



 Mais recente filme de Michael Haneke, A fita branca é um refinado exercício de tematização de questões teológicas, sociológicas, éticas e estéticas. É possível recolher alguns desses aspectos a partir de palavras que são ditas pelos personagens dos filmes, em seu idioma original, o alemão. Palavras que contêm uma imensa carga de sentido que deve ser recuperada, para que se tenha consciência da riqueza do filme do austríaco. 

O pastor, o médico, o senhor de terras, o professor – figuras de autoridade, de responsabilidade, Verantwortung, que ocupam o duplo ofício de cuidar, sorgen, das crianças (e doentes, e mulheres, e braços da lavoura), e também pôr os freios, castigar/corrigir, bestrafen. As primeiras palavras remetem ao universo sublime da filosofia (a autonomia kantiana e o cuidado do Dasein heideggeriano), enquanto a última alude ao inferno da colônia penal (Strafkolonie), de Kafka.
 

O espectador é apresentado a essas figuras ambíguas, e impedido de ter qualquer identificação com elas – exceto com a figura do professor, não por acaso, intimamente ligado à esfera “espiritual”, à música, e que é encarregado pelo cineasta de ser o “narrador” da história, um narrador que, já idoso, reconstitui os fatos que abalaram, um ano antes da Primeira Guerra, a ordem (apenas aparente, como se constatará) da pequena comunidade alemã.
 
O espectador vê e não vê. O “olhar” da câmara é distanciado, nas tomadas externas, com escassa movimentação. Nas tomadas de interiores repete-se a tendência à economia de movimentos, que é intensificada pelas longas pausas em que se vê apenas um corredor, uma porta fechada, uma janela. O efeito dessa forma é a sugestão de que o que é visto não é deformado pela perspectiva de nenhum personagem, nem mesmo do professor/narrador. O espectador não vê a criança sendo castigada com vara pelo pai/pastor. Ele não vê os momentos em que acontecem as agressões misteriosas que abalam a comunidade.
 

O único momento em que o “olhar” da câmara se acopla ao olhar de um personagem é a cena em que uma criança observa, entre fascínio e temor, o cadáver de uma mulher. O personagem retira o lenço que cobre o rosto da morta, como se para testar se ela poderia, ainda, voltar a retribuir o olhar.
 

A busca da pureza, Reinheit, e da inocência, Unschuld, é simbolizada pela fita branca amarrada às vestes dos filhos do pastor, e pela brancura da neve que cobre a paisagem de inverno. Na perspectiva moderna do iluminismo, a de Kant, a pureza (da Crítica da razão pura) alude à autonomia da razão, alcançada por meio da diferenciação dos motivos morais em relação aos instrumentais e aos afetivos. Na perspectiva cristã, a inocência é tida como estado impossível de ser atingido pela criatura humana, separada infinitamente do criador, e dependente de seu amor e sua eleição à graça. Novamente, expõe-se a ambiguidade do formar para a pureza/castigar a desgraça da impossibilidade da inocência.

A malignidade da criança, insinuada pela atitude de alguns personagens do filme, especialmente o do pastor, é assumida pela moral cristã como índice da resistência da condição original de pecado de toda criatura, que cumpre expor e reprimir, para a elevação do espírito ao amor de deus-pai. Escreve Santo Agostinho, nas Confissões: “A inocência das crianças reside na fragilidade dos membros, não na alma. Vi e observei bem uma criança dominada pela inveja: não falava ainda, mas olhava, pálida e incitada, para seu irmão de leite [...] sem dúvida não é inocente a criança que, diante da fonte generosa e abundante de leite, não admite dividi-la com um irmão embora muito necessitado desse alimento para sustentar a vida” (Livro I, 11).
 


Violência odiosa
 

A colheita destruída com ódio é uma das cenas mais fortes do filme. Os versos de Drummond – “Onde não há jardim, as flores nascem de um/ secreto investimento em formas improváveis” – falam da criação a partir de um mínimo de vida, de espírito. A violência odiosa contra as mais frágeis das criaturas: um pássaro, uma criança reveste-se da significação de um gesto desesperado de procura de alargamento das potências de vida, sufocadas sob uma ordem geral que não é mais fértil, nem sagrada, nem respeitosa com a fragilidade das suas criaturas.
 

A infertilidade é um dos mais poderosos símbolos do filme. Ela aparece em negativo, na fertilidade dos habitantes da aldeia, com seus numerosos filhos. Ela aparece, de forma mais direta, na figura do cadáver, exposto à observação. Nesse quadro geral, o anúncio do assassinato do príncipe do império austro-húngaro aparece como um signo de violência simultaneamente destruidora e libertadora. É como se os eventos na aldeia fossem uma alegoria do que se seguiria em escala histórica.
 

A luz, em A fita branca, ou é a fraca luz das velas e lampiões que iluminam os interiores, dos mais sombrios já mostrados no cinema; ou é a luz ofuscante da paisagem campestre, chapada, sob a qual o olho demora a encontrar referência e distinção. Esse tratamento da luz parece aludir à ideia de um criador egoísta e distante, que esmaga suas criaturas sob o peso de exigências impossíveis de cumprir. Não contente com isso, ele toma posse tanto de seus corpos quanto de seus espíritos, ao lograr que elas interiorizem a necessidade do mal e da repressão. Esse motivo, simultaneamente teológico e político, anuncia a dissolução de uma ordem nada inocente.
 

Por último, Vertrauen, confiança/crédito. A cena se passa entre os dois jovens noivos. O professor propõe um desvio de rota à pequena carroça, um passeio à beira do lago. A noiva resiste, com medo. “Por acaso eu faria mal a minha futura mulher?”, reage o rapaz. A moça, alegre, cede à confiança. Único gesto de confiança em meio a um universo de ódios dissimulados – alguns, nem tanto – e ressentimentos cultivados com obstinação. A confiança só é possível como promessa sem garantias últimas, entre dois igualmente frágeis seres humanos.
 

Douglas Garcia Alves Júnior é professor de estética e antropologia filosófica do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop)

Thursday, April 29, 2010

em dias de aprender a frieza

leiden, v. t. tolerar, sofrer; admitir, suportar; v. i. (an/dat.) sofrer, padecer; ___ unter (dat.)ressentir-se de; keinen Aufschub ___, não admitir demora; jemanden gut ___, gostar muito de alguém, simpatizar com alguém; Schiffbruch ___, naufragar; (fig.) falhar, malograr-se.

Tuesday, April 27, 2010

ano eleitoral 3

JANIO DE FREITAS 

A candidata Bengell



Atribuir a confusão fotográfica elaborada no site de Dilma a "interpretação equivocada" é desonestidade e desfaçatez

É DIFÍCIL saber qual dos dois atos do site de candidata de Dilma Rousseff é mais trapaceiro e repulsivo. Fazer uma foto do rosto de Norma Bengell nos seus bons tempos passar por foto de Dilma Rousseff poderia ser apenas ridículo como feito e perverso com a candidata não fosse, acima de tudo, um golpe sórdido.
Atribuir a confusão fotográfica elaborada, como faz uma nota do site desmascarado, a "interpretação equivocada" de quem quis conhecer as mensagens da candidata, é mistura de desonestidade e desfaçatez.
O propósito da baixeza está evidente no cuidado com que foram escolhidas as duas fotos. A de Norma, com o rosto pequeno, sem atrair atenção minuciosa, sob um pedaço de cartaz em passeata contra a ditadura; a de Dilma, o rosto inteiro, recente, não se sabe quanto. Mas, nas fotos utilizadas, as duas cabeças exatamente na mesma posição, enviesadas. Os cabelos acima da testa com disposição e corte iguais. O tempo explicaria a infidelidade dos traços da Dilma candidata aos da outrora Dilma manifestante. Ainda mais sabendo-se que a jovem Dilma foi participativa contra a ditadura.
A nota do site não foi seguida de alguma forma de pronunciamento de Dilma Rousseff sobre o que foi feito em nome de sua candidatura.
Caso não se conheçam providências respeitosas com o eleitor, o seu recém-nascido site não é dos que mereçam nem um mínimo de confiança para ser ainda visitado. Uma situação interessante para a candidata que ambiciona fazer da internet, a exemplo do feito por Barack Obama, um recurso eleitoral eficaz.

Meia-volta
A retirada formal da candidatura pretendida por Ciro Gomes é esperada para hoje, quando reunida a diretoria deste tantas vezes promissor, antes e depois de 64, e nunca realizado PSB, Partido Socialista Brasileiro. A maioria dos comentários a respeito da retirada de Ciro coincide, em linhas gerais, na conclusão de que assim se "cumpre o roteiro desejado" por Lula para esse seu ex-ministro e, como disse com ênfase mais de uma vez, amigo pessoal.
Ainda assim, os fatos até esse final não foram retilíneos. Em sua parte não exposta, houve entendimentos bastante afinados para um jogo em comum, mas de repente desandados. Por uma das partes. Ou seja, o roteiro fez um ângulo para uma guinada. Ou não seria um roteiro dos tempos atuais.

Fora
De volta à equipe de Dilma Rousseff: aqui ela será "candidata a presidenta" quando superintendente, atendente, gerente, e outras obras do sufixo ente, forem chamados por ela de superintendenta, atendenta, gerenta e por aí.

ano eleitoral 2

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Norma Rousseff

SÃO PAULO - Mas pode chamar também de Dilma Bengell. Como assim? Explico: na capa do site oficial de Dilma Rousseff (dilmanaweb.com.br), há uma sequência de três fotos, formando um painel ao lado da inscrição "MINHA VIDA".
A primeira foto à esquerda é da Dilma bebê, com seus dois ou três aninhos, o olhar sério e o cabelo de franjinha. A terceira imagem, à direita, é muito recente, poderia ter sido feita ontem; lá está Dilma tal como a conhecemos, o cabelo curtinho e avermelhado, o mesmíssimo olhar da primeira imagem.
O problema é a foto do meio. Ao fundo, há um cartaz, onde se leem palavras de ordem: "Contra censura pela cultura". Em primeiro plano, há uma mulher de cabelo curto e séria, cujo rosto é bem menor do que o das imagens ao lado. Sim, estamos nos anos 60. Sim, ela está numa passeata. Sim, claro, só pode ser Dilma Rousseff. Claro, mas errado.
A jovem manifestante da foto parece Dilma, mas é a atriz Norma Bengell. Participava da famosa Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, em 26 de junho de 1968.
Colocada entre a Dilma bebê e a Dilma madura, a foto da "Dilma jovem" é uma óbvia enganação. Mas ainda pior é a "nota de esclarecimento" que anexaram ao blog da candidata depois que o truque veio à tona: ali se "lamenta" a "interpretação equivocada" e se diz que "jamais houve a intenção de confundir a imagem de Norma Bengell com a de Dilma, o que seria estapafúrdio".
O que essa nota estapafúrdia faz é apenas colocar a cereja do cinismo sobre o bolo da impostura.
A pretexto de "ressaltar" que Dilma participou das "lutas contra a ditadura", seu blog investe na arte de iludir. Lá dentro, informa-se corretamente que a ex-ministra pertenceu a dois grupos adeptos da luta armada -o Colina e a VAR-Palmares. Bom ou mau, isso é diferente de tomar parte numa passeata.
Confundindo Dilma com uma atriz, seu site parece fazer da campanha um tipo de teatro. Faz sentido para uma candidata que, fora do governo, dá a impressão de ainda estar à procura de seu personagem.

Monday, April 26, 2010

os filhos de caim, o nômade. construtores de cidade.

Heidegger escreveu que todas as interpretações científicas do mundo estão marcadas por uma limitação radical, qual seja, a de que toda pretensão à verdade absoluta oculta a parte enigmática da vida cotidiana.
Todo sistema é uma pretensão,
todo sistema é prenhe de limitações;
a eles falta o essencial de um mundo que se revela a nós somente por recolhimento.
Hannah Arendt acusou Heidegger se usar o estratagema dos filósofos,  "de poder se espantar diante do simples e aceitar esse espanto como refúgio."
Para ela,  homens e mulheres  devem frequentar o mercado, o mundo das vozes e  disputas, da exposição  e apresentações incompletas. lá está a possibilidade do pensamento crítico, lá reside o enigma, que não está na origem, e sim nas periferias, na margem.
Para ele e para ela, a um só tempo e paradoxalmente, o mundo é o mundo da vida. ele, aposta no acabamento, na meditação;  ela, nas hipóteses falíveis sobre o mundo, as hipótese que se põem a caminho: em andamento, em processo.

política 4

o espaço, no fundo, é uma articulação. talvez, uma categoria - quando se trata de pensar o mundo contemporâneo. ou, para pensar a sociabilidade urbana, que é opaca ao olhar, exposta à desordem das atitudes e sentimentos imdividuais.

política 3 espaço social

o espaço social só pode ser instalado pela política. não há dimensão do espaço social que preexista à formatação da política. o espaço só recentemente foi assumido como elemento decisivo das forças produtivas da sociedade.

política 2. o contexto, só ele, direciona e fundamenta a ação.

toda filosofia política está inscrita na tradição do debate. existem muitas correlações entre a maneira como uma experiência é compreendida e descrita e o desenvolvimento de um pensamento sobre a ação política. mas não há algo como uma 'boa descrição' de uma experiência. toda justificação de uma experiência é uma prática comunicacional. não existe algo equivalente a uma descrição absolutamente verdadeira da experiência. todas as descrições teóricas de uma experiência devem ser interpretadas de maneira pragmática. uma descrição só ganha sentido em função do contexto. uma descrição, do ponto de vista pragmático, é sempre uma maneira de regular a ação, de lhe dar referências.

política 1

o poder está inscrito nas formas espaciais. o mundo político é pluriversum, não um universum.. disse gabriel garcia marquez, em cem anos de solidão: "'as coisas têm vida própria', apregoava o cigano com áspero sotaque, 'é tudo uma questão de despertar a sua alma'".

ano eleitoral começando

os caras da programação de computadores da candidatura governista colocaram uma foto da norma bengel simulando a dilma roussef numa passeata de 1968. ora ora, que novidade. a plataforma governista nos trata a todos como analfabetos funcionais. muito obrigada, dispenso.